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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

DENGUE: a novela de mau gosto que reaparece todos os anos

 Moacir de Sousa Soares
A dengue é considerada como uma das principais viroses urbanas que está afligindo o mundo, dado a sua forte abrangência geográfica. Segundo o Ministério da Saúde dos cinco continentes, os sorotipos circulam em quatro. Também estima que em média de 80 milhões de pessoas são infectadas anualmente e mais de 500 mil casos na forma hemorrágica com aproximadamente 19 mil óbitos. A dengue é uma doença que  produz um intenso sofrimento humano, além do risco de óbito quando manifestada na sua forma mais grave, os casos hemorrágicos. Essa virose tem se transformado numa novela de mau gosto que parece não ter fim; a cada inicio do ano recrudesce e sempre em tom de ameaça.
Balanço recente divulgado pelo Ministério da Saúde, apontando que em 2013 no foram notificados 1.476.917 casos suspeitos da doença em todo o Brasil. Representando um aumento de 54,6% em relação a 2010. Valendo ressaltar que Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Goiás concentram 68% das notificações. Os números atestam a preocupação, pois no ano passado 6.566 foram notificados como casos graves de dengue com 573 óbitos e 57.452 internações.
A origem do AEDES AEGYPTI, vetor da dengue, é africana. E, quem contamina é a fêmea, com hábitos diurnos para picar; por precisar de sangue para completar o processo de amadurecimento de seus ovos, que logo se transformam em larvas e posteriormente em mosquito que vive em média 45 dias. Nesse período de sobrevida, pode fazer até três posturas de 350 ovos aproximadamente, que resistem até 450 dias caso não tenham contato com água para eclodir.
Por não ter sintomas específicos, a DENGUE é uma doença fingida e podendo ser confundida com várias outras viroses, como: Gripe, Sarampo, Rubéola, Leptospirose, entre outras que provocam quadro clínico com sintomas semelhantes ao da dengue, que são: Febre Alta, Prostração Intensa, Dores de Cabeça, Mialgias (dores musculares), Calafrios, Dores Retro Orbitarias (dores nos olhos), Rigidez Articular, Exantemas, Náuseas, Vômitos, Anorexia (depois dos dois pontos tudo minúsculo) e Manifestações Hemorrágicas. Vale ressaltar que nem todas as pessoas acometidas da doença venham a sentir esses sintomas, razão maior para que ao senti-los qualquer um deles, procurar os serviços de saúde e, através de um exame laboratorial, precisar o diagnóstico.
 Há dois tipos de notificação: A Clínica Epidemiológica e a Positividade Sorológica. Na confirmação virológica, o exame deve ser realizado do 1º ao 5º dia, já a sorologia, entre o 8º ao 15º dia depois de manifestados os primeiros sintomas no paciente. Como são quatro os sorotipos da dengue, qualquer pessoa pode ter mais de uma vez a doença, pois se desenvolve imunidade permanente somente para aquele tipo de vírus que se contraiu e a imunidade cruzada é apenas por curto prazo. E, é nessa repetição da doença que aumenta a probabilidade de quadros hemorrágicos.
Números recentes mostram que no Brasil existem circulando todos os quatros tipos de vírus da dengue. Vale ressaltar que o aparecimento do sorotipo 4, significa um alerta para o aumento dos casos de dengue hemorrágica com elevado risco, notadamente para a população mais susceptível: idosos, cardíacos, portadores de diabetes e hipertensão e crianças. Muito embora todos os sorotipos possam evoluir para situação grave e fatal. Não há um tratamento específico para a dengue. As formas comuns das terapias curativas consistem em hidratação oral (água, sucos naturais, chás etc), o paciente precisa evitar fazer uso de SALICIILATOS (ASS), ter absoluto repouso, fazer uso da dipirona ou paracetamol como analgésicos e antitérmicos recomendáveis. Já para os casos hemorrágicos, o tratamento é bem mais complexo, como: "corrigir o distúrbio de coagulação, transfusão de sangue fresco ou concentrado plaquetário, combater a acidose", entre outras condutas médico-hospitalares como descritos nos Protocolos Clinico do MS/SESA.
O Combate ao mosquito transmissor demanda intensa vigilância epidemiológica, por isso requer tanta atenção o índice larvário identificado em cada área. A *O.M.S. considera sem riscos de transmissibilidade quando esse índice de infestação esta menos de 1%, acima disso carece de um conjunto de ações intersetoriais e participação da sociedade para evitar surto e ou epidemias da doença. As ações indispensáveis são muitas como: limpeza urbana, saneamento básico, abastecimento d’água, bom serviço de vigilância em saúde, educação em saúde dentre outros cuidados que evitem a reprodução do mosquito.
Enfrentar a dengue nesse período de escassez d'agua é uma dura tarefa, devido a facilidade com que o mosquito encontra para se reproduzir, devido ao excessivo número de pequenos reservatórios com água nos domicílios. Acabar com a dengue é impossível enquanto não for descoberta uma vacina. E por falar em vacina, somos crédulos que não tardará sua descoberta. Já se tem notícias que testes em humanos iniciaram nos EUA que foi a primeira fase do teste. A próxima fase acontece no Brasil com voluntários que nunca tiveram dengue escolhidos pelo Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. A terceira fase com indivíduos de outras regiões do Brasil que já podem ter tido contato com o vírus segundo agência USP.   Mas enquanto não dispomos desse imunoprevinível é quase impossível devido às condições de urbanização desordenada e os aspectos socioeconômicos e ambientais do "mundo moderno" que favorecem a rápida proliferação do mosquito.
As sociedades convivem com problemas de: acelerado processo de urbanização desordenada, deficiências no abastecimento d'água, aquecimento global, precárias condições de vida, lixo a céu aberto, pouca educação em saúde e, além disso, há o agravamento da situação epidemiológica, com a vulnerabilidade de novas epidemias pelo conjunto de sorotipos circulante. Somam-se a isso, a ineficiência dos tradicionais métodos de controle e combate ao mosquito, à descontinuidade das ações e aos parcos recursos dos Governos para enfrentar a magnitude do problema.   

domingo, 21 de julho de 2013

Programa Mais Médicos: "uma ação pobre e politiqueira", diz especialista

Moacir Soares*

A denominação “programas” na saúde pública brasileira sempre foi sinônima de planos temporários que se alicerçaram em circunstâncias tempestivas, como algo que rápido se fez e rápido se desfez. A nossa Saúde Pública é pródiga desses exemplos. Sua história é marcada muito mais por Programas de Saúde do que por Políticas de Saúde.

Estamos testemunhando o anúncio de mais um programa. O “Programa mais Médicos” lançado pelo Ministério da Saúde é o assunto do momento da mídia, das categorias profissionais e do senso comum. De pronto, sou radicalmente contra todos os itens desse pacote tão oco de substâncias que o setor da saúde publica requer. Ao meu juízo, os problemas da Saúde Pública brasileira não se resumem somente a falta de médicos e nem tão pouco a mais dinheiro para construir ou reformar Unidades Básicas de Saúde.

Essa prescrição posta, ou melhor, imposta pelo Governo Federal é um atesto de quem não conhece de perto o quadro de flagelo da saúde pública desse país, que se encontra no degrau mais baixo da credibilidade, do caos, da desassistência, do abandono, da falta de financiamento digno, de suporte tecnológico, das precárias condições de infraestrutura, de gestões ímprobas, dentre outras mazelas. Essa é a real radiografia e o grave diagnóstico de norte a sul do país.

É triste ver que os Governos se distanciaram dos objetivos do SUS, e por conta disso, o mesmo apresenta esse estado caótico e de falência múltipla dos seus órgãos, porque ficou sem amparo de uma política decente e focada nos princípios desse sistema.

Diante desse quadro, a única medida que pode acudir em tempo a nossa saúde pública, é o Governo Federal aplicar um choque de sinceridade e ressuscitador, com infusão de medidas sérias em overdose e em caráter emergencial para ver se ainda reanima esse modelo de saúde, que prometia ser um passo largo a frente e uma política de inclusão enriquecida de alternativas inovadoras.

E por falar em programa, o “Mais Médicos” ao ser apresentado deixou todo mundo apoplético e deve ser renegado não somente pela categoria médica, pois é um bafafá na precisão do termo. Foram tantas expectativas criadas, dado ao estardalhaço como foi anunciado tal pacote. Mas, como diz a máxima, “a montanha pariu um rato”, não passou de uma ação pobre e politiqueira na sua essência.

É óbvio que recrutar médicos sem nenhuma ou pouca proficiência na formação e no idioma, e ainda escalando-os para trabalhar a mercê das mais precárias condições, não mudará em quase nada a combalida assistência na saúde. Ademais, vai à contramão da política da integralidade e da resolutividade do Sistema Único de Saúde. Sem falar dos possíveis “médicos estrangeiros” atraídos para trabalhar nesse programa, sem proficiência do nosso idioma e de várias doenças tropicais/regionais, o que dificultará sobremaneira um bom exame clínico, uma boa escuta do paciente e até obter um diagnostico confiável. Será se um Ministério da Saúde vai contratar intérpretes para os médicos que não tenham o domínio da nossa língua? Além disso, há várias outras questões que estão sendo negligenciadas quando se trata de contratar médicos estrangeiros sem submetê-los ao Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos-Revalida. Pois, quem vai responsabilizar-se em: assinar as receitas, solicitar exames, expedir laudos, fornecer atestado médico e atestado de óbito dentre outras condutas próprias e regulares do exercício legal da profissão?

Nada de ufanismo, a Saúde Publica do Brasil precisa de uma política séria e de gestores qualificados e compromissados, e não só preocupados com estatísticas e travados pela falta de recursos. Hoje o que se ver é uma assistência abaixo da crítica, repleta de carências e que não inspira nenhuma confiança aos seus usuários.

O SUS foi levado pela correnteza do desfinanciamento e pela falta de prioridade política. Hoje, mais parece uma locomotiva movida a lenha num verdadeiro faz de conta de ações e serviços. Precisamos salvá-lo desse afogamento, e isso deve ser um imperativo ético para todas as classes sociais, usuárias ou não da saúde pública. Temos que honrar a história de vários personagens que dedicaram suor, tempo e inteligência, fundidos num mesmo propósito de se ter uma saúde pública mais humana e mais real.

*Ex-secretário de Saúde de Crateús, pedagogo, psicólogo e sanitarista mestre pela UECE e Especialista pela Escola de Saúde Pública do Ceará; MBA em Administração.