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domingo, 10 de março de 2013

USP implanta programa de doação voluntária de corpos para estudo anatômico


Em um dos laboratórios do Instituto de Ciências Biológicas da USP, há mais televisores do que corpos para o estudo da anatomia ­humana. É meia dúzia de aparelhos destinados a transmitir, ao vivo, as dissecações que os 180 estudantes de medicina deveriam acompanhar in loco, tarefa impossível sem algum tipo de revezamento ou troca de empurrões. Sobre as 16 bancadas de inox da espaçosa sala azulejada repousam apenas dois cadáveres. Por causa da drástica redução do número de indigentes, mortos não identificados por suas famílias, a instituição sofre um “apagão” de corpos para as aulas práticas.

Desde 2008, apenas quatro cadáveres foram incorporados pela instituição, número insuficiente para a demanda universitária, a incluir cerca de mil estudantes de cursos na área de saúde, como farmácia, enfermagem e educação física, entre outros. “Nos anos 1940 e 1950, recebíamos de 200 a 250 corpos por ano”, afirma Edson Aparecido Liberti, professor-titular do Departamento de Anatomia. “Não há a necessidade de tantos, mas o mínimo necessário é um cadáver por ano para cada grupo de dez alunos de medicina. Por isso estamos implantando um programa de doação voluntária, no qual as pessoas se comprometem em vida a doar o próprio corpo para a universidade após falecer.”

O problema não se restringe à USP. Em virtude da escassez de cadáveres, algumas universidades passaram a substituir corpos reais por bonecos para o estudo de anatomia. As peças artificiais podem imitar muito bem o corpo humano e servem como complemento, mas não são capazes de substituir as naturais. “Existe uma gama de variações anatômicas que os bonecos não conseguem representar. É importante para os alunos lidarem com a realidade”, diz a professora Thelma Parada, responsável pelo Programa de Doação Voluntária de Corpos para Estudo Anatômico do ICB-USP, em fase final de implantação e com 15 doadores já cadastrados. Além dos quatro corpos recebidos nos últimos cinco anos, a instituição conta com outros dez cadáveres mais antigos. “Algumas peças têm mais de 20 anos, só podem ser observadas. Não tem mais o que ser dissecado.”

Thelma Parada. Foto: Isadora Pamplona
No dia 25 de fevereiro, Thelma deve apresentar a sua tese de doutorado sobre o tema. Solução adotada por poucas universidades brasileiras, o programa que coordena pretende desmitificar a doação de corpos, informando os interessados sobre a possibilidade, quase desconhecida. “Não é nem uma questão de convencimento, é apenas de esclarecimento”, afirma Thelma. “Nos Estados Unidos, essa é uma prática muito comum. Quase todas as universidades têm programas semelhantes.”
O processo para se tornar doador é simples. Basta preencher alguns documentos de autorização com a assinatura de três testemunhas, de preferência as pessoas mais próximas do doador. Recomenda-se que o interessado avise aos familiares e amigos sobre seu ­desejo ­para que não haja nenhum estranhamento. Também é possível fazer a doação sem os documentos assinados, mas a burocracia aumenta e muitas vezes os familiares acabam desistindo. O contrário também acontece e o processo pode ser desfeito a qualquer momento: “Se na hora H houver qualquer tipo de hesitação, preferimos abrir mão do corpo, mesmo que tenha documentos válidos. Não estamos aqui para brigar”, diz Thelma.
Romeu Chimenti, metroviário aposentado de 66 anos, decidiu doar seu corpo após se informar sobre a crise de cadáveres nas universidades: “Quero ser útil para a sociedade mesmo depois de morto”, justifica. A família recebeu bem a decisão, tanto que sua esposa também aderiu à causa e se inscreveu. “Na nossa família somos adeptos da cremação, então já não haveria túmulo de qualquer forma. Faremos apenas um velório”, explica o aposentado, que é espírita e diz não haver objeção por parte de sua religião. O velório pode ser feito normalmente e após a cerimônia o corpo é levado para a universidade, em vez de ser enterrado ou cremado.
Denise Castor, professora de 44 anos, dispensa até o velório: “Não quero que a última lembrança de mim seja aquela imagem triste”, argumenta. Ela também assinou o documento de doação depois de muito pesquisar sobre o procedimento e até ter certeza de sua decisão. A família também aceitou bem, até mesmo sua mãe, evangélica, que foi motivo de preocupação para Denise. “Minha mãe me surpreendeu. Ela perguntou se isso ajudaria alguém e quando eu confirmei ela disse que queria fazer também”, conta a professora, acrescentando que a mãe preencheu os documentos, mas ainda não teve coragem de entregar. Denise pretende doar também seus órgãos, já que uma ação não impede a outra: “Minha família já está ciente do meu desejo”.
Um dos motivos de insegurança na doação do próprio corpo é a preocupação com os que ficam. Nem todas as famílias aceitam bem a ideia de não ter um lugar específico para prestar homenagem quando a saudade apertar. Saber que o corpo do ente querido vai ser espetado, cortado e manipulado em uma mesa de laboratório, sem a certeza de que o cadáver será devidamente respeitado, também pode ser duro para alguns.
Foto: Isadora Pamplona
No entanto, Thelma garante que a ética é uma norma dentro da sala de estudos: “Os estudantes respeitam. Certas brincadeiras podem até levar à expulsão. Mas faz tempo que não há nenhuma ocorrência do tipo”, explica a anatomista, acrescentando que de qualquer forma as pessoas dispostas a fazer a doação “aceitam a ideia de que seu corpo será possivelmente cortado errado pelos estudantes ou até, no pior dos casos, motivo de uma brincadeira, porque mesmo assim uma lição será aprendida”, seja de anatomia, seja de ética. “Os cadáveres são os primeiros pacientes dos estudantes”, defende. “Se o médico não treinar com os corpos, durante a faculdade, vai acabar fazendo isso com pacientes vivos, nos centros de emergência do País. O risco é muito maior.”
Thelma não fala apenas da boca para fora: ela dissecou o corpo da própria avó em 2008. Eunice Simão, avó paterna da professora, quis estudar medicina quando jovem, mas na época o pai não permitiu. Impedida de colaborar com a ciência enquanto viva, seu último desejo foi de que seu corpo servisse aos estudos anatômicos. “Foi uma coincidência dos anjos! Ela assinou o documento no ano em que eu nasci e eu escolhi estudar anatomia sem qualquer influência dela, já que não éramos tão próximas”, conta.
Mas quando foi realizar o último desejo da avó, Thelma teve de enfrentar uma montanha administrativa e decidiu abraçar a causa da doação de corpos para ajudar a dinamizar o processo. E então se tornou uma referência no assunto. Ela também pretende doar seu corpo, caso tenha ficado alguma dúvida.


Programa de doação
de corpos para a USP – Responsável: Thelma Parada; 
doadores cadastrados: 15; 
Telefone: (11) 3091-7226.
FONTE: Amanda Lourenço, da Carta Capital

sexta-feira, 8 de março de 2013

Estudantes cearenses postam fotos no Facebook ao lado de cadáveres


Estudantes do ensino médio visitaram laboratório da Uece.
Universidade afirma que não houve permissão para entrada ou fotos.

Adolescentes seguram uma mão enquanto posam
para foto (Foto: Reprodução/Facebook)
Estudantes do ensino médio de uma escola particular de Fortaleza fizeram fotos com cadáveres do Laboratório de Anatomia da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e publicaram no Facebook. Mas, segundo a Diretora do Departamento de Saúde da Uece, Gláucia Posso Lima, não é permitido tirar fotografias dos corpos do laboratório e os adolescentes não tinham autorização para entrar no local.
As diversas imagens mostram os alunos posando ao lado de cadáveres, segurando mãos, fetos e até bebês totalmente formados. Em contato com o G1, um dos estudantes que participaram da visita ao laboratório disse que se tratava de uma aula de campo. Ele afirmou que o professor de biologia levou os estudantes na tarde do último dia 23 onde passaram cerca de duas horas com os cadáveres.
“Os laboratórios são alugados, mas como ele [professor] é de lá ele conseguiu que a gente fosse pagando apenas o jaleco, as luvas e as máscaras”, conta o estudante. Ele disse ainda que, em um determinado momento, o professor os deixou sozinhos na sala e autorizou as fotos. “Ele disse que só não podia tirar foto dos rostos [dos corpos]”, afirmou o aluno. Estudantes do 3º, 2º e 1º anos participaram da visita.
O aluno disse ainda que o professor chegou a posar nas fotos com a turma. “Ele disse que seria bom [postar no Facebook] porque iriam fazer perguntas. Eu pus pra ter algo no face”, destaca. O G1 fez contato, por telefone, com o professor de biologia, mas ele disse não ser funcionário da Uece e afirmou que somente se pronunciaria após esclarecer o fato com a universidade.
Alunos posam ao lado de cadáveres e postam fotos no Facebook (Foto: Reprodução/Facebook)
Gláucia Posso Lima confirmou que o professor de biologia não é funcionário da universidade. Segundo ela, estudantes de escolas públicas ou particulares não têm autorização para terem aulas no Laboratório de Anatomia. A diretora e professora da Uece afirma que está investigando como os estudantes entraram na instituição. “Quero saber como, quem trouxe, já pedi a lista de nomes de entrada na portaria”, disse ela, completando, “e a gente não usa aquele material descartável [jaleco e máscaras], porque não protege contra o formol. Usamos jaleco de tecido e máscaras com filtro, os descartáveis não servem de nada. E não há isso de alugar o laboratório, vamos investigar tudo”.

Legislação

Segundo advogado Ricardo Madero, se houve permissão para a entrada dos estudantes, o professor pode ser responsabilizado civilmente e criminalmente. "Existe o direito à privacidade, o direito de imagem e o respeito aos mortos e essas imagens não poderiam ter sido divulgadas". Para o advogado, o primeiro passo para apontar os responsáveis é a instauração de procedimentos administrativo e criminal. "Se houve invasão, houve falha na vigilância e a Uece deve ser responsabilizada por não ter tomado os cuidados necessários".

Ricardo Madero disse, ainda, que apenas um inquérito policial pode esclarecer o que realmente aconteceu e apontar os responsáveis. As imagens foram retiradas do Facebook na tarde de quarta-feira (7).
FONTE: G1