O programa Federal "1 Milhão de Cisternas" entregou, até agora, apenas a metade do prometido para 2008
Cumaru (PE). Resultante de uma das maiores mobilizações da sociedade civil contra a seca, o Programa 1 Milhão de Cisternas (P1MC), lançado há dez anos, ainda não conseguiu atingir sua meta, que deveria ter sido alcançada em 2008 e ajudaria a amenizar os impactos da maior estiagem dos últimos 50 anos.
De acordo com levantamento da Articulação do Semiárido (ASA), rede formada por organizações da sociedade civil que coordenam o projeto com apoio do governo federal, elas somavam 419.178 até fevereiro deste ano, beneficiando cerca de 2,1 milhões de pessoas.
O programa, que conta com doações da iniciativa privada, depende principalmente do governo federal. E, segundo a ASA, foi justamente a inconstância dos repasses públicos que causou atraso no P1MC. Em 2011, o governo federal lançou iniciativa própria para acelerar a construção de cisternas: o programa Água Para Todos.
Desde 2011, no entanto, dos R$ 2,9 bilhões previstos para serem gastos até 2014, apenas 28% foram investidos e 270 mil reservatórios de água entregues. Mesmo assim, o Ministério da Integração Nacional afirma que, até o fim do mandato da presidente Dilma Rousseff, entregará 750 mil equipamentos.
Rejeição
Além de sofrer com atrasos, as iniciativas de entrega de cisternas à população ainda enfrentam outro problema: a rejeição de moradores e de algumas prefeituras a um dos tipos de cisternas comprado pelo governo federal. As feitas de polietileno, que totalizam até o momento 56 mil do total já entregue e custam mais do que as tradicionais, de placa (R$ 5.090 ante R$ 2.200).
No município de Cumaru, no agreste do Estado de Pernambuco, a 110 quilômetros da capital, pelo menos 95% das famílias residentes na área rural já contam com cisternas de concreto. E a população decidiu não aceitar as de plástico. De acordo com os moradores, as industrializadas duram pouco, deformam com o calor e não há orientação adequada quanto ao seu manejo. A rejeição já chegou até aos ouvidos da presidente Dilma.
Em sua última visita a Pernambuco, quando esteve no município sertanejo de Serra Talhada, o presidente da Federação de Trabalhadores de Agricultura, Doriel Saturnino de Barros, reclamou das cisternas industrializadas distribuídas pelo governo.
"A presidente realmente mostra disposição de universalizar o acesso à água. Mas com a velocidade que estamos precisando e com as dificuldades impostas até mesmo ao transporte das de PVC, não há como fazer tão rápido. Tem sido complicado para instalá-las, principalmente em áreas de difícil acesso no meio da caatinga, onde os caminhões não chegam. A partir da leitura deles (do governo), a de plástico é implantada com maior rapidez. Mas também é mais cara e não está suportando o solo quente do sertão, tanto que muitas já estão amassando", conta Barros.
"As de plástico não vêm suportando os altos índices de insolação da região, amolecem com o calor e a impressão que dão é que estão derretendo. Não são poucas as amassadas pelo sertão afora. E o trabalhador não sabe como fazer manutenção, até porque ela não vem com kit Durepoxi", ironiza Givanilson Porfírio da Silva, presidente do Instituto de Cidadania do Nordeste e assessor da Confederação de Trabalhadores da Agricultura do Brasil (Contag).
FONTE: Diário do Nordeste
